Escola – Fábrica de Pessoas, parecida com a de Software

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O Fabrício me emprestou o livro Você Está Louco, do Ricardo Semler. As palestras que já havia visto dele na internet são muito boas, o cara é sensacional. Mas, o tempo passava e eu nunca lia o livro dele, até que ele veio parar na minha mesa. Não vou falar muito mais sobre o livro, vou falar de um aspecto que ele levantou quando falava de escola e do projeto Lumiar, e que tem muito a ver com software.

No mundo de software, muito dinheiro, estudo e tempo foram gastos tentando trazer o conceito de linha de montagem para o software. O paralelo era claro: se entra ferro e sai um carro, pode muito bem entrar uma idéia e sair um software, é só cada um ter sua atividade muito bem definida, sem bem específico. O final da história todos conhecem: este modelo vem fracassando com o passar do tempo e as pessoas têm ido em busca de algo mais humano, que valorize o indivíduo e a interação entre eles.

Até aí nada de novo e o que tem a escola a ver com isso? Vejam a observação que ele faz no livro e que está transcrita abaixo:

Pós-revolução industrial, o importante era fazer transitar massas de crianças pela escola, para alimentar o dragão do mercado de trabalho. Assim, emulou-se a linha de montagem nas escolas, com carteiras fixas, professor para 20 ou 30 alunos (40 ou mais até), estruturar modular de 55 minutos e disciplinas verticalmente construídas.

É… realmente parecia que este modelo estava fadado ao sucesso, muito bem pensado. Assim conseguimos ganhos extraordinários construindo carros. Mas as coisas ficaram mecânicas demais e esqueceu-se de levar em conta que não era só chegar e despejar conteúdo para alunos que são chamados pelo número. É necessário despertar o prazer de ler, aprender, descobrir coisas novas. Você não está despejando conteúdo, está formando a pessoa.

Além disso, assim como na fábrica de software, praticamente não aproveitamos a interação entre diferentes matérias. Existem algumas tentativas em projetos conjuntos, mas as coisas são bem separadas.

Recuperando o contato pessoal

Na proposta de educação do projeto Lumiar, as crianças seriam acompanhadas por um tutor desde os primeiros anos de vida até se formarem. Este tutor cuida de cerca de 15 crianças e determina em conjunto com os pais e as crianças quais as aulas mais importantes para ela no momento. Simples e eficiente. Sem testes, mas sim, o tutor avaliando em conjunto com pais e aluno se ele está pronto para mais conhecimento.  Além disso, as aulas são dadas somente por pessoas que gostem muito do assunto. Faz todo sentido né ?

Educando uma criança, um grande projeto de escopo fechado

Por que ao entrarmos na escola, com cerca de 6 anos, já temos um cronograma definido do que vamos aprender até os 14? Os pais, o tutor ou alguém que acompanhe de perto o aluno e o próprio aluno poderiam definir o que é o mais apropriado para a criança aprender naquele momento, o que irá trazer mais valor para o cliente, no caso a criança.

Como disse o Ricardo Jordão no seu blog, porque raios eu tenho que decorar quem foi Mem de Sá? Está no Google e quando vou precisar disso, quantas vezes você precisou?

É ingenuidade minha, mas nunca havia pensado nas escola como um modelo de fábrica. É claro que tem escolas que tentam ser diferentes, mas achei interessante este paralelo do modelo convencional de escola, com o modelo convencional de software.

Ahh… e leiam o livro, nem é novo…  é muito bom!

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8 Respostas to “Escola – Fábrica de Pessoas, parecida com a de Software”

  1. Tweets that mention Escola – Fábrica de Pessoas, parecida com a de Software « Blog do Ensinar -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by André Moreira オタク, André Pantalião. André Pantalião said: Post no Ensinar: Escola – Fábrica de Pessoas, parecida com a de Software. http://wp.me/pjFVk-qY […]

  2. Fabrício Ferrari de Campos Says:

    Legal Panta!

    Tenho vergonha do sistema de ensino e de ter sido parte dele por tanto tempo. Não sei ainda o que irei fazer quando tiver os meus filhos (vai demorar ainda rs), mas tentarei buscar alguma escola que tenha uma forma de trabalhar mais sensata e que esteja disposta a forma pessoas e não robôs.

    Mas o grande problema na educação não está na educação, e sim do lado do “cliente”. Infelizmente, muitas pessoas simplesmente colocam os seus filhos em escola, e deixam sob responsabilidade dela a educação do filho.

    E isso ocorre em todas as classes sociais, a única diferença, é que um pai pobre coloca o filho na escola estadual/municipal mais próxima da sua residência, enquanto o pai rico coloca o filho na escola mais cara e se possível em tempo integral.

    Logicamente que a diferença entre uma escola particular e uma estadual/municipal é grande, mas ainda assim a metodologia de ensino é a mesma, apenas melhor implementada na escola particular.

    Eu já tinha ouvido falar do projeto Lumiar, sensacional ele! Espero que outros projetos parecidos surjam com mais frequencia.

    Outra iniciativa bem interessante foi a do Salvador Arena em 1990, com o colégio Termomecanica:

    http://www.fundacaosalvadorarena.org.br/colegio.asp

    Abraços! E parabéns pelo post.

  3. Antonio Anderson Souza Says:

    Post muito bom Panta!

    Eu lí o Você está louco há ums 4 anos, tá na hora de reler, porque o Semler é realmente muito bom.

    Eu já tenho duas filhas e estão começando a vida escolar delas agora, em escolas particulares tradicionais, a única mudança é que eles aplicam o método chamada de construtivista que justamente tenta aproveitar melhor a interação entre as matérias, e atividades práticas, mas de qualquer forma já existe o cronograma da 1o. a 9o. série, acredito que algo mais dinâmico seria melhor mesmo… é de se pensar!

    Abraços,

    Antonio

  4. Roberto Capelo Says:

    Boa, belo post!!

    Roberto Capelo

  5. andrepanta Says:

    Opa Antonio, valeu pelo comentário.

    As escolas melhoraram tentando adotar outras abordagens. É difícil questionar e procurar uma alternativa revolucionária de ensino… fica o receio se a criança vai aprender bem ou não. Então, é mais seguro aprender e ensinar como todos fazem.

    Na escola, já é muito sedimentado que este é o jeito certo de se ensinar. O que mais gostei na proposta do Semler, como em todos os outros aspectos que ele fala, é a proposta de tentar fazer algo diferente, onde os educadores, alunos e pais se sintam melhor. Se alguém não se sente bem com o modelo, tem algo para melhorar.

    Pena que este tipo de mudança aparentemente leve bastante tempo.

    Até mais,

    André

  6. andrepanta Says:

    Valeu Capelo!

  7. andrepanta Says:

    Fala Fabrício,

    Eu não chego a ter vergonha do sistema de ensino, porque encontrei alguns professores bem legais, capazes e apaixonados pelo que faziam. E acho que até algo de bom aprendi…hehe

    Mas vejo, que conforme o tempo foi passando, este modelo foi fazendo menos sentido, se tornando chato. Em faculdades então… é pior. Na faculdade particular parece que os alunos se acomodam muito mais com a idéia de que o professor deve prover o conteúdo e os alunos só passarem na prova.

    Mas concordo que se eu achava legal ir na escola, muito do que eu aprendi… é porque meus pais e minha irmã davam força, falavam que é uma boa… tornavam uma experiência melhor. Sem o “cliente” participar, tudo fica mais difícil.

    Você chegou a estudar nesta escola? Parece legal…

    Até mais,

  8. Fabrício Ferrari de Campos Says:

    Panta,

    Na escola não, mas na faculdade sim🙂

    Tanto a faculdade como a escola tenha regras bem fortes quanto a disciplina (embora ouvir falar que algumas regras estão afrouxando), que podem até parecer antiquados, comparado a realidade afrouxada atual.

    A qualidade de ensino é muito boa no colégio, geralmente, sai como um dos melhores do grande ABC todo ano. Já a faculdade é mais recente e não tem o mesmo nível de qualidade em relação ao colégio, mas a cada semestre a diretoria busca melhorar.

    O legal do colégio, além da qualidade do ensino tradicional, é que há outras materias complementares, como por exemplo aula de instrumentos musicais, esportes, etc. E tudo isso voltado para a comunidade carente, que é de onde vem a maioria dos alunos.

    Em relação a minha vergonha, é que realmente o sistema de ensino público, que frequentei até o 3º colegial, está decadente. E a cada ano piora.

    É difícil não ter vergonha de um sistema onde o aluno só repeti por faltas (ou fazendo MUITO esforço), a turma é organizada pela ordem alfabética, professores são mal pagos, salas lotadas, metodologia arcaica, infra-estrutura ruim, etc.

    Por isso, que iniciativas privadas como a do Ricardo Semler e do Salvador Arena, devem ser replicadas e exaltadas.🙂

    Abraços!

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